Eu era o cara do “F the banks”
Artigo convidado, escrito por Rocelo Lopes, criador da Truther e Chief of Digital Currency da Rezolve AI.
Treze anos depois de entrar no bitcoin, olho para o mercado que vi nascer no Brasil e para quem vai jogar o próximo jogo.

Entrei no mercado de criptoativos no começo de março de 2013. Bitcoin, no Brasil, era assunto de pouquíssima gente. Dava para lembrar de todo mundo pelo nome. A gente trocava figurinha com o Alex Ferreira, a Helena Margarido, o Fernando Ulrich, o André Horta, o Rodrigo Batista, o João Canhada. Tinha mais gente, claro. Mas esses eram os que queriam construir alguma coisa.
E tinha a outra turma. Os caras do "o governo não tem que se meter, ninguém tem que se meter". Alguns eram contra até as corretoras, veja só. Vi muitos passarem. O Edilson Osório tentou criar o primeiro cartório em blockchain, enfrentou os problemas que todo pioneiro enfrenta e acabou indo embora do país, porque entendeu que aqui não havia espaço para aquilo naquele momento. O Safiri Felix também era daquela leva, mas já pensava em alguma coisa lá na frente.
Era um mercado livre, experimental, quase feito à mão. E, olhando daqui, amador em quase tudo.
O mercado que a gente tinha
Teve uma época em que se discutiu, no Congresso Nacional, se criptomoeda deveria ser tratada como milha aérea ou tíquete-refeição. Muita gente do mercado, inclusive gente de cabeça aberta, preferiu não aparecer. Tinham medo. Eu achava que, se era para discutir, que se discutisse com quem estava vivendo aquilo. Fui a Brasília contra a opinião de quase todo mundo do meio. Lembro muito bem disso, porque ninguém queria falar do assunto.
O que eu queria era ver gente usando bitcoin no dia a dia. Brigava por isso. As corretoras foram ganhando espaço devagar, e lá fora já existiam nomes grandes, como Bitfinex e Bitstamp. E existiu a Mt. Gox, que deu ao mercado a primeira lição e talvez a mais cara de todas: not your keys, not your coins.
Em 2015 eu tentei lançar um cartão. A ideia era simples: o usuário carregaria um cartão Visa com bitcoin. Estávamos com tudo pronto quando a Visa deu um passo atrás. Faltava regulamentação, foi o que ouvimos.
Para continuar existindo, a gente precisava de conta em banco. E aí vieram os primeiros embates. Preciso fazer uma confissão: eu fui um cara revoltado. Bati de frente com quase todos os bancos. Era o sujeito do "F the banks, F KYC". E aprendi, a duras penas, que estava errado.
O que ganhamos e o que ficou pelo caminho
Não dá para escalar uma tecnologia tão poderosa quanto o bitcoin sem as grandes instituições. Demorei para aceitar isso. Sempre comparo com a internet: ela só chegou a todo mundo porque empresas grandes entraram e investiram pesado. Sem esse dinheiro, a gente ainda estaria ouvindo o barulhinho do modem discando.
Aquele camarada que chegou brigando com banco e com regulador deixou de ser amador. E acho que meus pares passaram pelo mesmo processo. Ninguém joga esse jogo sem ter, no mínimo, um bom entendimento com o sistema financeiro e com quem regula. O cara do "F the banks" cresceu. Virei um adulto bem mais coerente, digamos assim. E a maior prova disso foi ter sido a primeira pessoa no mundo a conectar USDT diretamente a 24.000 caixas eletrônicos e, ao mesmo tempo, interligar de forma transparente a blockchain ao PIX, permitindo que carteiras de autocustódia, sem usar nenhum serviço de API, pudessem enviar e converter USDT em PIX de forma transparente e instantânea, devolvendo ao usuário o controle sobre o seu dinheiro.
Mas não foi só ganho. Hoje a informação de quanto cada pessoa tem em cripto fica guardada em bancos de dados, e isso eu acho extremamente perigoso. Senti na pele, de forma muito pessoal, o que essa exposição pode causar. Também tive problemas com a Receita Federal numa época em que ninguém lá entendia o que era criptomoeda, e discuto isso na Justiça até hoje.
Levo tudo como aprendizado. Foi o que me trouxe até aqui, num momento em que finalmente dá para ver o mercado ganhando escala. Só que a privacidade que a gente tinha no começo ficou para trás, e essa conta ainda não foi paga.
O mercado que estamos construindo
Se alguém me pergunta qual é o futuro das corretoras, respondo sem rodeio: ou a corretora vira banco, ou o banco compra a corretora. No dia em que um grande banco montar uma boa plataforma, comprar uma ou entrar de sócio em uma, não vai sobrar espaço para o pequeno. Esse é o campo dos bancos, queira a gente ou não.
No Brasil isso já aparece. A legislação não tem sido boa para as corretoras. A Bitso anunciou que está indo embora, a Crypto.com também, e outras falam em fechar as portas por aqui. Talvez sobrem três ou quatro. E é bem possível que duas delas acabem com um banco como sócio.
Também não consigo imaginar uma corretora listando centenas de moedas. É gastar muito em infraestrutura para pouco retorno. Com as dez maiores, o problema está resolvido. Ainda mais quando a stablecoin já responde por algo perto de 80% do volume.
Pensa comigo: se o banco cria dentro do aplicativo uma conta chamada "dólar digital" e coloca debaixo dela USDC, USDT e todos os outros "USD alguma coisa", o cliente vê um saldo só. Com as stablecoins de real, a mesma coisa, vira "real digital". É exatamente isso que estamos construindo na carteira da Truther by RezolvePay. Do lado de fora ficam o bitcoin, mais como reserva de valor, um novo ouro, e umas cinco ou seis redes que fazem sentido pelo protocolo, como Tron e Polygon. O resto pode ficar no DeFi, talvez numa área separada dentro do próprio app do banco, que só precisa conectar a carteira do cliente.
Minha aposta é que o mundo vai ter menos de dez grandes corretoras, um monte de DEXs disputando um lugar ao sol e mais de 80% do volume passando por stablecoins, que vão abocanhar também remessas e pagamentos.
A história do cartão volta aqui. Dez anos depois de a Visa recuar, Visa e Mastercard não param de falar em stablecoin. A Mastercard diz que vai oferecer infraestrutura para que fintechs, empresas e bancos liquidem operações 24 horas por dia usando stablecoins. Quem deu um passo atrás lá atrás agora vem com força total. Não conheço prova melhor de que as grandes instituições vão entrar em cripto para dominar.
E as bandeiras não têm muita escolha. Países como a Inglaterra querem reduzir a dependência de Visa e Mastercard e já discutem abrir o Faster Payments, o sistema de pagamento instantâneo deles, para o varejo, no modelo do PIX. O PIX mostrou ao mundo o que dá para fazer. Nós integramos o PIX a uma blockchain há uns três anos, e acho que esse é o próximo passo dos governos: já que o pagamento instantâneo funciona, por que não conectá-lo direto às stablecoins? Isso facilita importação e exportação e ajuda a trazer turista.
O que ainda falta resolver
Regulação é um desafio. Autocustódia também. Mas, para mim, o maior problema do mercado hoje é a privacidade.
Imagina que um banco decida oferecer bitcoin e deixe o cliente enviar e receber livremente, com uma autocustódia de verdade. Se eu passo meu endereço para alguém me pagar, essa pessoa vai ver meu saldo? O cliente aceita isso? O regulador deixa um banco fazer isso? Acho que não. Hoje o USDT na rede Liquid é praticamente a única opção com privacidade, e a Liquid teve problemas recentemente. O USDT começando a rodar sobre o bitcoin via RGB pode ajudar, e o próprio bitcoin tem propostas nessa direção. Eu também estou trabalhando com alguns amigos numa blockchain carinhosamente chamada de “SAMBA.network”, voltada exclusivamente para o mercado financeiro, com escalabilidade e privacidade nativas.
A autocustódia tem outro problema: o mundo não está pronto para ela. A regulação caminha para um modelo em que ela não é muito bem-vinda, e pedir para o usuário comum guardar 12 palavras não funciona. Na Truther by RezolvePay vamos testar em breve uma autocustódia validada pelo e-mail, sem as 12 palavras. É um primeiro passo, e ainda tem muita coisa para evoluir.
E o regulador precisa estar dentro do jogo. Ninguém quer um sistema que sirva para lavagem de dinheiro. O regulador tem que participar para poder dizer, com tranquilidade, "esse modelo pode circular no Brasil". Tem muita gente discutindo a Travel Rule, e muito disso poderia ser resolvido on-chain, de um jeito bem mais eficiente. Não me surpreenderia se Apple e Google começassem a exigir que as carteiras cumpram essas regras para atender o público brasileiro. Hoje, nenhuma consegue.
A entrada dos bancos e dos grandes fundos vai trazer o dinheiro para resolver tudo isso. Só que não é coisa de seis meses ou um ano. Vamos precisar de pelo menos mais três anos desenvolvendo tecnologia, seja para guardar chave privada, seja para garantir privacidade. São esses três anos que vão ditar a regra.
No fim, vejo cripto rodando dentro do sistema financeiro. Vai ter carteira que vira banco 3.0, vai ter corretora fazendo parceria com banco, o banco cuidando do fiat e a corretora cuidando do cripto. Pode ser. Mas não consigo mais enxergar esse jogo sendo jogado só por startups ou por empresas que vivem exclusivamente de cripto.
Se não trouxer os grandes bancos, não escala. Eu demorei treze anos para dizer isso sem desconforto.
Sobre o autor

Rocelo Lopes atua no mercado cripto desde 2013 e é uma das principais referências em blockchain, stablecoins e infraestrutura financeira digital no Brasil. Atualmente é Chief of Digital Currency Initiative da Rezolve AI, liderando iniciativas globais ligadas à integração entre ativos digitais e sistemas de pagamento. É também criador da Truther by RezolvePay, e lidera sua expansão, com foco em autocustódia, tokenização e pagamentos com stablecoins. Reconhecido entre os nomes mais influentes do setor, atua no desenvolvimento da nova infraestrutura financeira baseada em blockchain.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Declarando Bitcoin. Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.



