O mercado que escolhemos construir
Artigo convidado, escrito por Guilherme Sacamone, CEO da OKX Brasil.

Durante anos, o mercado cripto brasileiro funcionou como um grande experimento sem dono. Não havia regras claras, não havia responsabilidade definida, e as operações com maior volume muitas vezes eram de empresas sem entidade local que mal investiam no país. Volumes imensos, times locais inexistentes, atendimento em inglês, reclamações sem retorno. O Bitcoin subia, e enquanto subia, ninguém perguntava de onde vinha a liquidez, quem custodiava os ativos, ou quem respondia se algo desse errado.
O modelo extrativo
Esse era o modelo dominante: entrar no Brasil, capturar o volume, e reinvestir o mínimo possível em estrutura local. Chamo isso de operação extrativa. E o Brasil cripto foi majoritariamente extrativo por anos.
O que mudou: regulação e um investidor mais maduro
Esse cenário começou a mudar por razões que se reforçam mutuamente.
A regulação chegou. O Banco Central definiu o marco das PSAVs, com data limite para o pedido de autorização em outubro de 2026, exigindo supervisão, requisitos de capital, governança e compliance de qualquer prestador de serviços de ativos virtuais. Não é uma regulação perfeita, e vou falar sobre isso adiante, mas é um marco estrutural que muda as regras do jogo. O efeito mais importante não é sobre operações que já funcionam de forma estruturada, é sobre as que não funcionam. O marco regulatório vai forçar uma migração para estruturas locais alcançáveis pelo Banco Central e por autoridades brasileiras, e isso se soma a um futuro de segurança jurídica, é bom para o consumidor.
Em paralelo, o investidor amadureceu. O brasileiro que entrou em cripto em 2020 queria comprar Bitcoin e guardar. O de 2026 pergunta sobre estratégias de trading avançadas, quer soluções de DCA, quer entender staking, compara spreads, sabe o que é prova de reservas, e exige atendimento quando algo não funciona. Esse perfil mais sofisticado é o melhor sinal de maturidade que o mercado poderia apresentar. E é também o investidor que vai pressionar por estrutura de atendimento, produto localizado e responsabilidade jurídica no mesmo país onde ele mora.
Banco e exchange: complementares, não concorrentes
Em novembro de 2023, a OKX abriu operação completa no Brasil. Não escritório de representação. Operação de verdade: time local com dezenas de pessoas, produto com PIX nativo, pares em real, assento no conselho da ABcripto, onde fomos a primeira exchange global a ser representada, e parceria com o BTG Pactual como rampa e custódia fiat.
Esse último ponto merece atenção. Escolher o maior banco de investimentos da América Latina como parceiro de entrada e saída de reais não é detalhe operacional. É uma declaração de como enxergamos a relação entre bancos e exchanges: não como concorrência, mas como complementaridade. O banco oferece aquilo que tem de melhor: relacionamento, crédito, custódia básica, confiança institucional acumulada. A exchange oferece profundidade que o banco estruturalmente não tem: spot em centenas de ativos, staking, ferramentas de gestão de risco, acesso a mercados globais sem horário de funcionamento. O investidor que quer comprar Bitcoin e guardar vai encontrar isso em qualquer banco grande. O que quer ir além vai precisar de infraestrutura diferente. Esses dois perfis podem coexistir, e a tendência é que coexistam cada vez mais.
Antes de a regulação tornar obrigatório qualquer um desses investimentos, já estávamos construindo a estrutura que o mercado regulado exigiria. Os resultados são mensuráveis. No primeiro ano de operação, alcançamos R$ 2 bilhões em volume negociado. Um marco importante na época, mas que hoje representa apenas uma pequena fração do nosso fluxo contínuo. E temos nota 8,5 no Reclame Aqui, reputação “Ótimo”, a maior entre todas as exchanges globais que operam no Brasil. Nota em plataforma de reclamações não é métrica de marketing. É evidência de que operação estrutural gera resultado real para o consumidor.
O Brasil no mapa regulatório global
Temos uma vantagem rara nessa conversa: a OKX opera sob licença MAS em Cingapura, VARA em Dubai e MiCA na União Europeia, com licença de money transmitter nos 43 estados americanos que possuem essa exigência, e licença ASIC na Austrália. Não trago isso como argumento de superioridade, mas como referencial técnico, porque a comparação internacional é o que permite calibrar onde o Brasil está bem e onde ainda precisa avançar.
A regulação das PSAVs é uma evolução positiva, e a maioria das críticas que ouço são sobre calibragem técnica de instrumentos específicos, não sobre a legitimidade do arcabouço. A ABcripto tem conduzido esse diálogo com o Banco Central de forma construtiva, e é o canal certo para isso.
A transparência regulatória que ainda falta
Há uma oportunidade específica do setor que (ainda) pouco se discute. Várias exchanges globais continuam operando no Brasil sem comunicar claramente sua estratégia regulatória para seus usuários. Enquanto a regulação das PSAVs define um novo padrão, clientes dessas plataformas não sabem se a exchange que escolheram vai solicitar licença, vai encerrar operações no país, ou está simplesmente em modo de espera. Esse silêncio, em minha opinião, pode ser interpretado como uma forma de irresponsabilidade com o consumidor. Transparência sobre intenções regulatórias não é obrigação legal, mas é obrigação ética com quem confia seus ativos a uma plataforma.
Tokenização: o próximo capítulo
O que a regulação vai revelar, ao longo dos próximos anos, é uma nova categoria de produtos com potencial de transformar não só o mercado cripto, mas o mercado financeiro como um todo: valores mobiliários e ativos tokenizados. Ações, títulos, fundos, imóveis acessíveis via blockchain, negociáveis a qualquer hora, de qualquer lugar. O mundo vai operar 24 horas por dia, 7 dias por semana, de forma tokenizada.
Essa tendência não vai esperar por regulação favorável para se materializar: ela já pressiona legisladores e reguladores em toda parte do mundo, e o Brasil não escapou desse movimento. A questão que vale fazer agora é se vamos ser pioneiros e capitalizar a oportunidade, ou se vamos chegar atrasados, quando os padrões já tiverem sido definidos em outros mercados.
O investidor brasileiro mais sofisticado que mencionei antes já está fazendo essas perguntas. Ele quer acesso a equities tokenizadas, quer infraestrutura de pagamento via stablecoins, quer ferramentas que simplesmente não existem no mercado tradicional. Quem tiver estrutura para entregar isso, no padrão regulatório que o Brasil está construindo agora, vai escrever o próximo capítulo.
E essa nova fase não pertencerá a quem capturou mais volume no passado, mas sim a quem construiu estrutura quando não era obrigado, a quem tratou o investidor brasileiro como prioridade quando era mais fácil tratá-lo como dado de mercado.
A OKX chegou ao Brasil com uma tese: mercados que recebem operação estrutural respondem com crescimento estrutural. Três anos depois, essa tese vem se confirmando.
O Brasil merece o nível de serviço que os maiores mercados do mundo recebem. As empresas que vão liderar o que vem a seguir são as que já entenderam isso.
Sobre o autor

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a posição do Declarando Bitcoin. Este conteúdo tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.



