Bitcoiners, perdemos: no Brasil, quem manda no cripto são as stablecoins
A reta final do prazo para pedir autorização ao Banco Central está deixando claro algo que já vinha sendo dito há um tempo: o mercado brasileiro de cripto não gira só em torno de compra e venda de Bitcoin. Cada vez mais, ele gira em torno de stablecoins, remessas internacionais e liquidação entre empresas.
Os novos movimentos de Urban, SuitCoin, OSL Brasil e Velaro Network, que anunciaram nesta quinta, 29, seus pedidos ao BC, reforçam exatamente isso. Em vez de focar apenas na velha lógica da exchange de varejo, essas empresas aparecem ligadas a serviços como pagamentos internacionais, balcão institucional, liquidez empresarial e uso de stablecoins como USDT e USDC (é, bitcoiners… acho que perdemos a liderança).
Essa transformação já havia sido identificada pelo Banco Central. Em fevereiro de 2025, o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, afirmou que aproximadamente 90% dos fluxos de criptoativos observados no Brasil estavam relacionados a stablecoins, usadas principalmente para pagamentos e compras internacionais.
Em maio daquele ano, o diretor Renato Gomes voltou a mencionar essa estimativa e destacou o crescimento das transferências internacionais feitas com dólares digitais. Os dados ajudam a explicar por que empresas especializadas em liquidação, remessas e operações de câmbio estão buscando enquadramento no novo marco regulatório.
A Receita Federal apresentou números ainda mais detalhados em julho de 2026. Segundo o órgão, entre agosto de 2019 e dezembro de 2025 foram declarados aproximadamente R$ 1,58 trilhão em operações de compra e venda de criptoativos, dos quais R$ 1,13 trilhão, ou 71,7%, envolveram stablecoins. Em 2025, esses ativos responderam por cerca de 80% do volume mensal declarado e chegaram a movimentar R$ 39,7 bilhões só em novembro.
O USDT liderou com 88,7% do volume acumulado de stablecoins, seguido pelo USDC, com 7,1%, e pelo BRZ, com 3,4%. Ou seja, quando tu olha para os números da Receita e para o perfil das empresas que estão buscando autorização, percebe que o mercado brasileiro de criptomoedas já funciona, em grande parte, como uma infraestrutura de movimentação de dinheiro digital.
Se tu junta esses casos, aparece um padrão bem claro: a nova leva de interessados na licença cripto está muito ligada a dólar digital, liquidação transfronteiriça, câmbio operacional e serviços para empresas, e não apenas à especulação com criptoativos.

O mercado de cripto no Brasil está virando um mercado de stablecoins?
A resposta curta é: em grande parte, sim.
Isso também ajuda a explicar por que a regulamentação do Banco Central não mexe só com compra e venda de Bitcoin. Ela mexe com um mercado que está cada vez mais próximo de funções tradicionalmente ligadas a câmbio, pagamentos e serviços financeiros.
Para quem acompanha o setor, a corrida pela licença cripto não está dizendo apenas quem quer continuar no mercado. Ela também mostra qual mercado realmente está crescendo no Brasil.
E, pelo que os novos pedidos mostram, esse mercado tem cada vez mais cara de stablecoin, remessa e infraestrutura de pagamentos, muito mais do que de simples plataforma para comprar e vender cripto.
Legal, mas e aí, o que isso quer dizer?
O Bitcoin vai ficar mais caro, mais barato? Vou ter que pagar mais imposto? Por enquanto, nada muda na tua declaração. O que esse movimento mostra é que as stablecoins estão abrindo as portas para o cripto fazer cada vez mais parte do sistema financeiro tradicional e, com isso, abrindo caminho também para a tokenização de ativos e para as criptomoedas, que devem ganhar mais investidores nos próximos anos no Brasil.
Do Declarando Bitcoin
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Sobre o autor
Cassio Schiavi é jornalista com mais de 20 anos de carreira, sendo a última década dedicada ao mercado de criptoativos. Formado em Jornalismo pela FACCAMP e pós-graduado em Globalização e Cultura, já entrevistou nomes como Adam Back, Bill Clinton e Henrique Meirelles e cobriu fóruns como G20 e FMI. No blog do Declarando Bitcoin, escreve sobre regulação cripto.


