Toda exchange nasceu numa garagem. Nem todas saíram dela
Artigo convidado, escrito por Fabrício Tota, VP de Negócios Cripto do MB | Mercado Bitcoin.

"Exchange não é carteira." "Faça sua própria pesquisa." Quem investe em cripto há algum tempo já ouviu essas frases centenas de vezes, e com razão. Elas nasceram como regras de sobrevivência num mercado em que a única proteção disponível era o próprio cliente.
Em 2013, investir em Bitcoin no Brasil tinha algo de investigação particular. Você ouvia falar, perguntava a um amigo, escolhia uma das poucas exchanges disponíveis e testava com algum dinheiro. Comparava taxa e facilidade de cadastro, mas a decisão de verdade era em quem confiar. O site parecia profissional? Alguém conhecia os donos? Havia endereço, telefone, um rosto por trás da tela? Eram perguntas sem resposta óbvia, e muita gente seguia em frente mesmo assim.
Naquele mercado, algum improviso era inevitável. Era um mundo de startups de garagem, com poucos mapas e muita gente abrindo caminho. Investidores curiosos aceitavam riscos que hoje seriam difíceis de justificar, enquanto empreendedores tentavam oferecer um serviço que ninguém no mundo ainda sabia direito como prestar. Os bordões vêm dessa época. Eram o jeito honesto de avisar que ali havia um risco difícil de medir, e que quem entrava topava carregá-lo.
Eu acompanho Bitcoin como investidor e estudioso desde 2013 e trabalho no setor desde 2018. Vi as barreiras enfrentadas por empresas cripto, inclusive o encerramento de contas bancárias e disputas que chegaram ao Cade. Abrir esse mercado no Brasil exigiu persistência, e essa história merece ser lembrada. Ela só não serve de desculpa para que o cliente continue aceitando o improviso.
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Hoje, cripto já envolve patrimônio de famílias, reservas de empresas, crédito, pagamentos e mercado de capitais. Uma plataforma que guarda ou movimenta recursos de terceiros assumiu uma responsabilidade muito diferente daquela do experimento pioneiro. A escala mudou, e o mercado tradicional tem um nome antigo para o que vem junto com ela: dever fiduciário. Quem cuida do dinheiro dos outros deve agir no interesse de quem confiou, com diligência, lealdade e transparência. Cripto pode pegar esse conceito emprestado pronto.
As regras acompanharam a mudança. Em 2019, a Receita Federal criou obrigações específicas de informação sobre operações com criptoativos, a conhecida IN 1888. As exchanges brasileiras passaram a reportar tudo, e por isso alguns as trataram como dedo-duro, como se cumprir uma obrigação fosse trair o cliente. As estrangeiras, que não tinham esse dever, ganharam fama de bacanas, do lado do investidor. A obrigação, porém, não sumia: passava para o próprio cliente, que precisava declarar sozinho as operações feitas lá fora acima de R$ 30 mil por mês, muitas vezes sem saber disso. Na melhor das hipóteses, essa fama vendia conveniência. Na pior, deixava para o cliente uma conta que a Receita pode cobrar mais tarde. Desde julho de 2026, com a DeCripto, até essa diferença começou a acabar: prestadoras estrangeiras que direcionam serviços ao Brasil também passaram a reportar.
Com as regras que entraram em vigor em fevereiro de 2026, o Banco Central traçou outra linha. As prestadoras que já operavam quando a regulamentação entrou em vigor têm até 30 de outubro de 2026 para pedir autorização. Depois dessa data, bancos e instituições de pagamento ficam proibidos de oferecer Pix e conta a quem não tiver licença ou, no mínimo, não a tiver solicitado.
Cumprir essas exigências custa caro. Capital, segurança, auditoria, controles, governança e profissionais qualificados não aparecem por geração espontânea. O ajuste fino importa: regras mal calibradas podem sufocar bons operadores e reduzir a concorrência. Cabe ao regulador fazer essa conta e, depois, supervisionar com consistência. O que não faz sentido é chamar de eficiente uma empresa que só parece barata porque empurrou parte do risco para o colo do cliente.
Alguns empreendedores têm decidido sair, e está tudo bem. Há gente muito boa em ambientes novos, incertos, com alto prêmio pela ousadia. Quando o mercado amadurece, o capital necessário aumenta e o negócio muda. Procurar outra fronteira pode ser uma decisão racional. Vender essa saída como ato heroico em defesa do pequeno investidor já é forçar a barra.
Para quem fica, a régua agora é do Banco Central, e a primeira linha que ela traça é simples: quem pediu autorização e quem não pediu. As plataformas globais que escolheram não pedir não vão desaparecer da noite para o dia. Vão continuar acessíveis por aplicativo, por afiliado, por algum caminho que dispense o Pix de um banco brasileiro. Só que operam fora da régua, e quem deposita lá aceita essa condição, esteja ciente ou não.
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Entre as que pediram, pedido ainda não é licença. Até que o BC conclua as análises, a escolha continua passando pelo que existe por trás da tela: quem responde pelo serviço no Brasil, como os ativos são guardados, se há extrato e histórico confiáveis, se o atendimento consegue explicar o que aconteceu com cada real, cada satoshi, cada token depositado. Nada disso elimina risco, e ainda assim ajuda a separar a operação que assume suas obrigações daquela que conta com a dificuldade do cliente de enxergar. A regra estabelece o piso. Acima dele, quem escolhe é o cliente.
É aqui que os bordões do começo precisam voltar ao seu lugar. "Exchange não é carteira" e "faça sua própria pesquisa" continuam sendo bons conselhos, assim como educação financeira e autocustódia. Nenhum deles, porém, serve de salvo-conduto para custódia frágil, conflito de interesses, governança precária ou informação insuficiente. Um cliente bem informado continua tendo direito a um prestador responsável.
A indústria tem razão em defender inovação e concorrência, e também em questionar exigências, pedir proporcionalidade, negociar prazos e faseamento. É uma conversa que vem sendo construída com o regulador há anos, e é bom que continue. Na mesma medida, o setor precisa aceitar o escrutínio que acompanha o papel financeiro que conquistou. O mercado cresceu, os serviços ficaram mais complexos, e a responsabilidade já não cabe naquele aviso de rodapé em que o cliente concorda que o serviço é prestado a partir de Nárnia, sem garantia alguma, e que todos os riscos são dele.
Ousadia é virtude de quem empreende. Confiança é direito de quem investe.
Sobre o autor
Fabrício Tota é VP de Negócios Cripto do MB | Mercado Bitcoin, onde atua desde 2018 com criptoativos, tokenização, stablecoins e infraestrutura blockchain. Investe e estuda Bitcoin desde 2013. É membro do Conselho da BRL1, stablecoin lastreada em reais, colunista do Estadão E-Investidor e do Investimentos.com.br, e integra o Conselho Editorial do Portal do Bitcoin. Onde mais está ativo é no LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/fabriciotota/
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